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terça-feira, 27 de março de 2012

Anunciação - Clarice Lispector


Anunciação

Tenho em casa uma pintura do italiano Savelli - depois compreendi muito bem quando soube que ele fora convidado para fazer vitrais no Vaticano.
Por mais que olhe o quadro, não me canso dele. Pelo contrário, ele me renova. Nele, Maria está sentada perto de uma janela e vê-se pelo volume de seu ventre que está grávida . O arcanjo , de pé ao seu lado, olha-a . E ela, como se mal suportasse o que lhe fora anunciado como destino seu e destino para a humanidade futura através dela, Maria aperta a garganta com a mão, em surpresa e angústia .
O anjo, que veio pela janela, é quase humano : só suas longas asas é que lembram que ele pode se transladar sem ser pelos pés. As asas são muito humanas : carnudas, e o seu rosto é o rosto de um homem.
É a mais bela e cruciante verdade do mundo.
Cada ser humano recebe a anunciação: e, grávido de alma, leva a mão à garganta em susto e angústia . Como se houvesse para cada um , em algum momento da vida, a anunciação de que há uma missão a cumprir .
A missão não é leve : cada homem é responsável pelo mundo inteiro .

Clarice Lispector

terça-feira, 13 de março de 2012

Clarice Lispector, uma aprendizagem

Estive no Rio de Janeiro fazendo o curso Clarice Lispector, uma aprendizagem - no Instituto Moreira Salles, que contou com a presença de Benjamin Moser, Vilma Âreas. Nádia Batella Gotlib e Carlos Mendes de Sousa. Aqui vão alguns momentos:
 
Com o americano Benjamin Moser, autor da biografia Clarice, (Cozac Naify, 2009), na primeira aula do curso.Moser abordou o tema: Vida depois da Vida - a vida lendária e mítica de Clarice pós-mortem.

Na Livraria Travessa do Leblon ocorreu um evento estra-curso: um animado bate-papo com Benjamin Moser, Ancelmo Gois e Carlos Mendes de Sousa.   Lá fiquei sabendo das boas notícias para os aficcionados por Clarice Lispector: vem aí um filme (em inglês, uma co-produção com o Brasil) sobre a vida de Clarice e um livro sobre a Clarice pintora, que será um catálogo com todas as suas pinturas. Alem disso, Moser está traduzindo toda a obra de Clarice para o inglês, segundo ele com a difícil tarefa de achar uma 'voz' para Clarice naquele idioma.
 
Nádia Gotlib (foto) ministrou a aula " Estratégias narrativas". Ela não poderia deixar de estar lá com toda a sua bagagem sobre Clarice.
Vilma Âreas falou sobre o livro Legião Estrangeira em "Considerações sobre um livro fraturado".

O escritor potuguês Carlos Mendes de Sousa encerrou o curso com o tema " Ler e reler Clarice".
Ao final, houve o lançamento de seu livro 'Clarice Lispector - Figuras da Escrita", editado pelo Instituto Moreira Salles - uma bela ediçao.
Uma presença especial e para lá de discreta  durante o curso foi a de Paulo, filho de Clarice.

sábado, 20 de agosto de 2011

O vestido branco - Clarice Lispector



O Vestido Branco

Acordei de madrugada desejando ter um vestido branco. E seria de gaze. Era um desejo intenso e lúcido. Acho que era a minha inocência que nunca parou. Alguns, bem sei, já me disseram, me acham perigosa.
Mas também sou inocente. A vontade de me vestir de branco foi o que sempre me salvou.
Sei, e talvez só eu e alguns saibam, que se tenho perigo tenho também uma pureza. E ela só é perigosa para quem tem perigo dentro de si. A pureza de que falo é límpida: até as coisas ruins a gente aceita. E têm um gosto de vestido branco de gaze. Talvez eu nunca venha a tê-lo, mas é como se tivesse, de tal modo se aprende a viver com o que tanto falta. Também quero um vestido preto porque me deixa mais clara e faz minha pureza sobressair. É mesmo pureza? O que é primitivo é pureza. O que é espontâneo é pureza. O que é ruim é pureza? Não sei, sei que às vezes a raiz do que é ruim é uma pureza que não pôde ser.
Acordei de madrugada com tanta intensidade por um vestido branco de gaze, que abri meu guarda-roupa. Tinha um branco, de pano grosso e decote arredondado. Grossura é pureza? Uma coisa sei: amor, por mais violento, é.
E eis que de repente agora mesmo vi que não sou pura.

Clarice Lispector

domingo, 10 de julho de 2011


"Não me lembro mais qual foi nosso começo.
Sei que não começamos pelo começo.
Já era amor antes de ser."

Clarice Lispector

quarta-feira, 30 de junho de 2010

foto: Carmen Fanganiello

"Mas não sou completa, não.
Completa lembra realizada.
Realizada é acabada.
Acabada é o que não se renova
a cada instante da vida e do mundo.
Eu vivo me completando...
mas falta um bocado”.

Clarice Lispector

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Meu Deus, me dê a Coragem - Clarice Lispector



Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.

Clarice Lispector

sábado, 24 de abril de 2010


"Mas nem sempre é necessário tornar-se forte.
Temos que respeitar nossas fraquezas.
Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza
legítima à qual temos direito.
Elas correm devagar e quando passam pelos
lábios sente-se aquele gosto pouco salgado,
produto de nossa dor mais profunda."

Clarice Lispector

segunda-feira, 8 de março de 2010

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Falha necessária

"Terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária."
(Clarice Lispector)

domingo, 13 de dezembro de 2009

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Clarice Lispector


"Só o que está morto não muda!
Repito por pura alegria de viver:
A salvação é pelo risco,
Sem o qual a vida não vale a pena!!!"

Clarice Lispector


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Tentação - Clarice Lispector



Este é um texto apaixonante, um dos meus favoritos. Foi citado em uma postagem de julho aqui do blog, que é um texto do Caio Fernando Abreu, chamado Pequenas Epifanias. Vale a pena ler os dois. Ambos são tocantes e nos deixam com uma inquietante sensação de falta, a eterna dúvida do que teria sido aquilo que não quisemos, não pudemos ou não ousamos viver.


Tentação


Clarice Lispector


Ela estava com soluço.
E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava.
Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto de bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço, a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão.
Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento.
Na rua deserta nenhum sinal de bonde.
Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher ? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas.
O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão do Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnado na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam. Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava ? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo. Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos. Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo.
Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne.
Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam. Mas ambos eram comprometidos. Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ele fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreendiam. Acompanhou-os com os olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.
Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.

sábado, 8 de agosto de 2009

Clarice

Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania.
Depende de quando e como você me vê passar.
Clarice Lispector

domingo, 7 de junho de 2009

Clarice Lispector - Não te amo mais

Na semana do Dia dos Namorados, nada melhor do que este genial poema de Clarice que, lido de cima para baixo serve para os desiludidos e, lido de baixo para cima para os apaixonados. Escolha a sua interpretação...

Não te amo mais
Não te amo mais
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis
Tenho certeza que
Nada foi em vão
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada
Não poderia dizer mais que
Alimento um grande amor
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
Eu te amo!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Clarice Lispector


"Ah, se eu pudesse te transmitir a lembrança,
só agora viva,
do que nós dois já vivemos sem saber."

Clarice Lispector

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Clarice Lispector

Para terminar o dia, toda a profundidade de Clarice:
"Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente. Também sou muito calmo e perdôo logo. Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de que eu me lembre."
Clarice Lispector