domingo, 10 de março de 2013

Poema Triste


Foto: Poema triste

O não ter filhos
não me poupou de sentir a dor
dos que os perdem.
É preciso muito consolo
para aceitar esta mudança de colo,
este aparente  equívoco 
nos tempos de partida,
essa contranatureza,
refluxo de correnteza.
Mistérios imcompreensíveis 
aos nossos olhos humanos e fracos.
Os braços que perdem os filhos
precisam dos abraços de Deus.

Mara Senna 
Para a Cármen Lucia Soares, com o meu carinho.
 
Poema triste

O não ter filhos
não me poupou de sentir a dor
dos que os perdem.
É preciso muito consolo

para aceitar esta mudança de colo,
este aparente equívoco
nos tempos de partida,
essa contranatureza,
refluxo de correnteza.
Mistérios incompreensíveis
aos nossos olhos humanos e fracos.
Os braços que perdem os filhos
precisam dos abraços de Deus.

Mara Senna

 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Mulheres



Foto: Mulheres

Somos divas cheias de dádivas,
da esperança, sempre grávidas
e temos mais fé do que dúvidas.
Corajosas e intuitivas,
nos atiramos ávidas
sem nos importar
com as coisas havidas:
somos sempre pela vida, vida, VIDA!

Mara Senna 

Foto: Françoise Felix
Ilustração: Françoise Felix
 
Mulheres

Somos divas cheias de dádivas,
da esperança, sempre grávidas
e temos mais fé do que dúvidas.
Corajosas e intuitivas,
 nos atiramos ávidas
sem nos importar
com as coisas havidas:
somos sempre pela vida, vida, VIDA!

Mara Senna
 

segunda-feira, 4 de março de 2013

O amor acaba - Paulo Mendes Campos


O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
 
Paulo Mendes Campos

 
Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Paciência

Um poema do meu segundo livro Ensaios da Tarde:
Foto: Um poema do meu livro Ensaos da Tarde:

Paciência

A laranjeira está carregada
de frutos promissores
para daqui a três ou quatro dias, acho.
Não sei bem qual é o tempo de maturação 
das laranjas.
Não sei bem qual é o tempo de nada.
O que sei
é que vou esperar
o quanto for preciso.
Quanto maior a paciência,
mais doce o caldo. 

Mara Senna

Paciência
A laranjeira está carregada
de frutos promissores

para daqui a três ou quatro dias, acho.
Não sei bem qual é o tempo de maturação
das laranjas.
Não sei bem qual é o tempo de nada.
O que sei
é que vou esperar
o quanto for preciso.
Quanto maior a paciência,
mais doce o caldo.

Mara Senna



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Estação

Ilustração:  Meninas para Sempre
 
Estação
 
Meu trem parou na estação Esperança.
Desci apressada, sentei-me.
Passaram-se os anos,
eu lá esperando.
Só então percebi: errei!
Não era a estação Esperança;
era a estação do Não Sei.
Agora não sei se vou, ou se fico.
Não sei mais o que espero.

Mara Senna
in Luas Novas e Antigas
 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Vinho doce


Do meu livro Luas Novas e Antigas para vocês:

Vinho doce

Amor eterno.
Vida efêmera.
O amor transborda pela borda
do copo da vida.
Bebemos só alguns goles há uns tempos,
não soubemos aproveitar a bebida.
Se hoje somos mais amargos,
é porque desperdiçamos
o doce vinho da vida.

Mara Senna

Vinho doce
 
 Amor eterno.
Vida efêmera.
O amor transborda pela borda
do copo da vida.
Bebemos só alguns goles há uns tempos,
não soubemos aproveitar a bebida.
Se hoje somos mais amargos,
é porque desperdiçamos
o doce vinho da vida.

Mara Senna
no livro Luas Novas e Antigas

 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Blocos Online

Minha poesia agora  está no portal de literatura e cultura Blocos Online a convite da escritora Leila Miccolis. Um site que tenho muito  orgulho em participar

http://www.blocosonline.com.br/literatura/autor_poesia.php?id_autor=3829&flag=nacional 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Vinho velho

 
Vinho velho

O tempo é o senhor da razão,
mas quem quer razão
quando não lhe resta tempo?
Há quem espere o vinho 
envelhecer demasiado,
para depois só lhe sobrar 
o gosto do vinagre.
Melhor não contar com um milagre
se não houver mais água 
para ser transformada.
O prodígio que já pode ser vivido
não precisa e não deve esperar por nada.
Eu já sabia que nunca é tarde para ser feliz,
mas aprendi que nunca é cedo demais.

Mara Senna no livro Luas Novas e Antigas
 
Vinho velho

O tempo é o senhor da razão,
mas quem quer razão
quando não lhe resta tempo?
Há quem espere o vinho
envelhecer demasiado,
para depois só lhe sobrar
o gosto do vinagre.
Melhor não contar com um milagre
se não houver mais água
para ser transformada.
O prodígio que já pode ser vivido
não precisa e não deve esperar por nada.
Eu já sabia que nunca é tarde para ser feliz,
mas aprendi que nunca é cedo demais.

Mara Senna
no livro Luas Novas e Antigas

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Fevereiro

Carnaval dos Mascarados -  Lícia Fábio
 
Fevereiro
 
Fevereiro, fevereiro,
chegas assim, cheio de máscaras,
mas tu não me enganas mais.
Eu já te conheço
de outros carnavais...

Mara Senna