quinta-feira, 28 de abril de 2016

Quintaneando


Foto de Poeta Mara Senna.


Quintaneando


Hoje o dia está azul
como o perdão de Quintana:
impossível não ser feliz.
E porque as nuvens estão de folga,
as dores estão mais calmas,
as almas mais serenas,
Tudo porque o dia é azul,
um azul misericordioso.

 
Mara Senna


baseado  no poema de Mário Quintana
foto: Google

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Prêmio

Prêmio

Toda segunda-feira é uma ladeira
na subida.
Então, imagino que me espera
um beijo seu na chegada.
Aí, depois,
é só rolar na desciida
Mais nada...

Mara Senna

Imagem: Berdia Geliashvili

23 de abril - Dia Mundial do Livro


Livro
 
Devoro-te com os olhos.
Sinto teus cheiros.
Desfolho uma a uma as tuas páginas,

pétalas sépias.
Se te tenho nas mãos, me possuis
Se me prendes, me libertas
com as palavras certas.



E desde o teu começo
renego o teu fim,
pois se em ti me esqueço,
quando findares,
o que será de mim?
Mas, generoso,
recompensas o meu apreço
e te reinventas, faz-te novo,
 te eternizas em recomeços.
Mara Senna
 
23 de abril - Dia Mundial do Livro
 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Velhas canções


Velhas canções


O rádio do carro toca flashbacks'', músicas diretas do túnel do tempo: temas de novelas, filmes, coisas de outras épocas douradas, ou pelo menos, que hoje, de longe assim me parecem.
Uma a uma eu as reconheço, e canto bem alto, revivendo as letras.
Nessa hora, sou de novo jovem, sou estudante, sou namorada....

Tenho nos lábios os tons da inocência perdida, no corpo, roupas de outras modas, nos olhos maquiagem de 'dancing days`.
Em que momento será que nos transformamos em velhas canções e nem percebemos?
 
Mara Senna

Vila Rica



Foto de Toda Prosa - Mara Senna.

Vila Rica

Neste dia 21 de abril, dia de Tiradentes, como mineira de raiz que sou, me vem à tona a lembrança de Ouro Preto, antiga Vila Rica, cidade que conheci como a palma da minha mão em tempos de estudante, quando o coração também era de estudante.
Subir as suas ladeiras, andar pelos seus becos e vielas, é como entrar numa máquina do tempo e ouvir de novo os sussurros, as conspirações atrás das grandes portas e janelas.
É ouvir os suspiros de amor das alcovas, os poemas de Dirceu para sua Marília.
É contar os contos dos contos de réis.
É saber que cada uma daquelas pedras seculares traz um segredo, que jamais contarão. Não, as pedras de Ouro Preto não são traidoras como o foi Joaquim Silvério dos Reis. Se delas dependesse, as ruas não teriam bebido o sangue de Joaquim José da Silva Xavier.
Um dia, em uma das visitas à cidade, eu bem jovem, perambulando por suas ruas, perdi uma pulseira de ouro. Creio que deve ter caído em uma das suas infinitas gretas, e ali ficado invisível e inacessível entre as pedras. Talvez tenha ficado ali para sempre. Na época fiquei triste, porque era um presente de minha mãe. Hoje, agrada-me saber que ali deixei meu ouro misturado ao seu ouro negro. É como se, assim, eu tivesse me incorporado à sua história.
Hoje, quando vejo alguém que viaja ao exterior, mas que não conhece Ouro Preto, digo que é, sim, maravilhoso subir as ladeiras de Roma, ou de Montmartre em Paris, ou de São Francisco, que é muito bom subir e descer pelas ladeiras do mundo todo, mas que a sua viagem só será completa quando subir as ladeiras de Ouro Preto; só para encontrar ali a sua própria história na eterna Vila Rica dos sonhos de liberdade.
 
Mara Senna

foto: Google - desconheço o autor

terça-feira, 19 de abril de 2016

Ideia fixa

Foto de Poeta Mara Senna.

Ideia fixa

Desde que te encontrei às duas da tarde
no Largo da Matriz,
não paro de te encontrar...
às duas da tarde no Largo da Matriz.
Já tentei de outra maneira ser feliz,
mas tudo o que fiz até aqui
foi para te encontrar de novo
às duas da tarde
no Largo da Matriz.
Eu não consigo mais achar outra rima,
mesmo que esteja na ponta do meu nariz.
Eu só quero te encontrar de novo,
às duas da tarde
no Largo da Matriz.

Mara Senna

Imagem: Berdia Geliashivilli

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Ausência

Foto de Toda Prosa - Mara Senna.

Ausência

Subitamente, o dia azul de abril tornou-se cinza. e embora houvesse muita luz, sol e harmonia naquela manhã de outono, para mim, havia cessado a estação. Tudo ficou opaco e pesado como o chumbo e eu senti afundar o chão sob meus pés. Minha mãe partira para sempre naquela manhã, avisava a voz do meu irmão ao telefone.
Fiquei sem rumo e francamente parva. Anteontem eu havia me despedido dela na porta de sua casa, parecia bem, acenou-me do alpendre com um sorriso. Mal sabia eu que seria o seu último adeus.
Aos meus ouvidos chegava agora o canto de algum pássaro indiferente, e desinformado da minha dor. Eu compreendera assim, num relance, que quando viesse a flor de maio, eu já não iria florir como de costume. Uma névoa circundou-me em um abraço gelado que só a morte sabe dar. Meu coração agora já estava em pleno inverno
Uma dor lancinante cobrava-me dentro do peito o muito que eu perdia assim, tão de repente. E me vinha ao pensamento um verso do Vinícius: “de repente, não mais que de repente do riso fez-se o pranto...”
E até o ‘de repente’ me soava estranho. Eu sabia o quanto eu havia tentado, ao longo da vida, me preparar para esta perda tão previsível, que Cecília, soube cantar tão bem em teus versos: “era uma ausência que se demorava, uma despedida pronta a cumprir-se.” E, no entanto, quando se cumpriu, eu me vi totalmente desprevenida.
Quem disse que a vida permite ensaio? A morte estreia triunfante na sua hora precisa; nem um minuto a mais, nem a menos, estejamos nós preparados ou não. E, na verdade, nunca estamos.
Nas folhas secas do chão, súbito, enxerguei claramente a transitoriedade da vida. Elas simplesmente caem na estação prevista, tornam ao pó e outras folhas nascem, tomam seu lugar e assim o ciclo da vida se repete.
Olhei as paineiras que sempre florescem nessa época. Saltavam-me agora aos olhos os grandes espinhos no seu tronco, contrastando com a beleza rósea e suave das suas flores. Flor e espinho, riso e pranto, prazer e dor: seria essa a receita oculta da vida?
Eu buscava, como que desesperada, aprender de Drummond, a ausência “branca e pegada”, mas a minha, nesse momento, era negra e tinha mais a dureza da pedra do que o aconchego dos braços. Talvez, como disse o poeta mineiro, eu ainda fosse mesmo ignorante dessas coisas e lastimasse a falta. Mas ele que tanto entendeu das pedras, há de saber mais do que ninguém o que sinto e entenderá que também eu “tenho razão de sentir saudade.”
Mas, neste ponto, peço desculpas por ousadamente contradizer Vinícius, e dizer que eu não “deixarei que morra em mim a vontade de amar os seus olhos” tão verdes, nem o som gostoso da sua risada, o carinho das suas mãos nos meus cabelos, a doçura da sua voz. Até que um dia eu aprenda a transbordar tanto dessa ausência, que eu possa quase acreditar que de fato eu tenha voltado a ser feliz. E que nunca mais, nada nem ninguém, possa tirá-la de mim. E eu possa repetir Proust e afirmar que a ausência de minha mãe será para mim “a mais certa a mais intensa, a mais indestrutível e a mais fiel das presenças.”
Que assim seja. E há de ser.
Mara Senna

Imagem: Leslie Stahl

Trecho de uma carta que nunca escrevi II

Foto de Toda Prosa - Mara Senna.

Trecho de uma carta que nunca escrevi

Responda-me apenas isto: quão longe de ti tenho que ir para que a saudade não me alcance ?
 
Mara Senna
...
Imagem: desconheço o autor

Trecho de uma carta que nunca escrevi

Foto de Poeta Mara Senna.

Trecho de uma carta que nunca escrevi


É certo que estou sempre contigo e posso dizer que toda essa onipresença só existe, porque vivo carregada da tua ausência.
 
Mara Senna




Imagem: desconheço o autor


O pão inventado



Foto de Mara Senna.

O pão inventado


A vontade de fazer um poema
vem como a fome
e se não há pão,
inventa-se.
Só passa a vontade ...

quando fico saciada
do pão inventado.
E porque invento,
vivo e sobrevivo
à míngua
e à mágoa.
É melhor viver a pão e água
do que viver sem poesia.
 
Mara Senna


foto: do Google