sábado, 13 de agosto de 2011

De Repente - Mara Senna


De repente

Ninguém surge assim de repente...
Há que se tirar muitas camadas
antes de chegar ao âmago.
E lapidar muito mais para atingir
a intensidade,
a quintessência,
a plenitude
de quem vive
com excelência.

O pior é morrer sem surgir,
nascer e não se descobrir.
Viver com casca, máscara,
passar a vida inteira atrás do personagem.
E só se dar conta na hora derradeira.
E só neste momento compreender
que o dissimular
custou a graça de uma vida inteira.
É...
Ninguém surge assim de repente.
mas é de repente que se vai!


Mara Senna
in Ensaios da Tarde ( a publicar)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Poeminha desta noite - Mara Senna


Poeminha desta noite

Eu escrevo enquanto o sono não vem.
Eu escrevo esperando o sonho
que eu nem sei se já passou.
Mas, então, eu apago a luz,
acendo a esperança
e vou dormir em paz,
feito criança.

Mara Senna

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Canção - Emílio Moura


Canção

Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.

Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.

Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos. 

Viver não dói. O que dói,
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.

Que tudo o mais é perdido.

Emílio Moura

domingo, 7 de agosto de 2011

Páginas de Outono - Prêmio Sesc de Poesia

Acaba de ser lançada a edição 2010 do Prêmio SESC de Poesia Carlos Drummond de Andrade. Dela faz parte este meu poema 'Páginas de Outono', que foi um dos classificados dessa edição.


Páginas de outono

O que eu gosto no outono,
é qualquer coisa de desalinho
e desalento.
É a supremacia do vento
sobre as folhas passadas,
sobre as páginas viradas.
É um desapego,
um despedir-se,
estendendo um tapete
de folhagem,
por onde o futuro,
triunfante,
desfila sua nova
roupagem.
O outono tem, sim,
qualquer coisa
de mutante.
É um desvencilhar-se,
para seguir
adiante.

Mara Senna

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Chuva miúda - Mara Senna


Chuva miúda

Eu gosto desta chuva fina
que cai feito carinho,
feito benção
e escorre suave
como lágrima de alegria...
lavando a minha alma
e o meu dia.


Mara Senna

domingo, 31 de julho de 2011

Caio Fernando de Abreu


"Ontem chorei. Por tudo que fomos. Por tudo o que não conseguimos ser. Por tudo que se perdeu. Por termos nos perdido. Pelo que queríamos que fosse e não foi. Pela renúncia. Por valores não dados. Por erros cometidos. Acertos não comemorados. Palavras dissipadas.Versos brancos. Chorei pela guerra cotidiana. Pelas tentativas de sobrevivência. Pelos apelos de paz não atendidos. Pelo amor derramado. Pelo amor ofendido e aprisionado. Pelo amor perdido. Pelo respeito empoeirado em cima da estante. Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa. Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados. Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa. Por tudo que foi e voou. E não volta mais, pois que hoje é já outro dia. Chorei. Apronto agora os meus pés na estrada. Ponho-me a caminhar sob sol e vento. Vou ali ser feliz e já volto."

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Espelho - Mara Senna

Este foi um dos primeiros poemas que publiquei aqui no blog. Agora, ele volta, repaginado.


Espelho

Nunca saberá ao certo
quem sou eu.
Tenho dupla-face,
dupla identidadeAdicionar imagem
e sexto sentido.
Intuição de sobra,
razão de menos.
Juízo demais.
Tudo fora da hora...
Por isso,
corro sempre atrás do prejuízo
das emoções perdidas.
No espelho, vejo o que quero,
enxergo o que não gosto,
finjo que não vejo.
Sei quem eu sou 

nas duas faces do espelho.
Por isso, nunca me perdi.
Mara Senna

terça-feira, 12 de julho de 2011

Hilda Hilst


"Costuro o infinito sobre o peito.
E no entanto sou água fugidia e amarga.
e sou crível e antiga como aquilo que vês
Pedras, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam. "
Hilda Hilst

domingo, 10 de julho de 2011


"Não me lembro mais qual foi nosso começo.
Sei que não começamos pelo começo.
Já era amor antes de ser."

Clarice Lispector

sábado, 2 de julho de 2011

Definições de Adriana Falcão


"Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue."

"Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo."

Adriana Falcão